Monday, March 18, 2013

regardless

Eu acho que deveria parar de pensar um pouco, mas não consigo. Ao caminhar sozinha ou andar de bicicleta ou ficar em silêncio, eu preciso pensar. Não consigo esvaziar minha cabeça, mas eu preciso.. eu preciso para ficar - ou fingir estar - bem. Em razão disso, eu deveria abster-me de pensar, porque pensar demais acaba sempre levando a você, e pensar em você remete às impossibilidades mais doídas, aos dilemas mais crueis e às incógnitas mais determinadas que já houvera. Lembrar do que passou, do que foi, do que não mais é. Pensar demais leva a você. E pensar em você remete à saudade que eu não quero sentir. Pensar demais manterá acesa a chama que se alastra dentro de mim, que arde, que não perdoa. 
Só não quero pensar mais em você, seria pedir demais?.

Sunday, March 10, 2013

body in a box

Moça, te escrevi uma coisa, que é pra ti lembrares de mim mesmo quando não estou contigo; pois de ti sempre lembro, mesmo quando não estás comigo. Indelével é tua voz a cantarolar-me cantigas de criança, a recitar Renato Russo e ler-me Saint-Exupéry. "Do contrário quem virá visitar-me? Estarás tão longe..", disse-me tantas vezes, em tantas noites que pedira eu a mesma história. Sinto tuas mãos acariciando meus cabelos, até que eu caísse em sono profundo. Ainda sinto teu tom a rodear-me os dias e teu riso a acalmar minhas tormentas. Porém, não te vejo em lugar algum.. Nem nas esquinas de ruas usuais, nas janelas dos prédios ou nos olhos de outras pessoas; não te vejo perto daqui, em canto algum dessa cidade. Não te vejo em nenhuma vitrine, nem a vagar por aí. Te vejo somente na harmonia das minhas músicas preferidas, nas estrofes de Érico Veríssimo e nas angústias de Clarice; te vejo na leveza de Chico, no poder da voz de Elis e na imensidão de Tchaikovsky. Te vejo quando estou sozinha; quando canto e a voz embarga, quando perco o fio da meada. Quando penso em te ver, desabo sobre mim e desdobro-me em migalhas. Te vejo em sonhos raros, nas lágrimas que ardem o coração, em tudo o que deixei de ser. Sinto tuas mãos tocarem meus ombros e tua ausência atilada no olhar desmedido de esperanças que nada encontra ao olhar para trás. Te sinto nos ventos que desarrumam os cabelos e tiram meus pés do chão..
E assim, moça dos cabelos alaranjados, todo o meu amor é destinado a ti, tudo o que abriga meu coração. Dou teu nome a toda saudade que me invade, que me desola, que tento guardar em uma gaveta qualquer; amassada, murcha, vazia e embrulhada como papel amassado. Às vezes me perco sem você aqui, e quando assusta a lembrança tua ser tão vaga dentro de mim, meu coração grita que estás aqui; que mesmo de longe, estás dentro de mim. Às vezes só quero que tu me dê a mão, ouça minhas tristezas e compartilhe de meus sorrisos. E imploro baixinho, sabendo das impossibilidades que nos rodeiam: volta pra cá, volta pra gente. És um vazio imperscrutável no âmago, no fundo da alma dói a falta que tu fazes. E, de vez em quando, pra tentar explicar isso que sinto, dou-te o nome de "Saudade".. Mesmo sabendo que és muito mais. 

Texto dos 13 anos sem ti.

Monday, March 4, 2013

impermanência

"I betrayed you," she said baldly.
"I betrayed you," he said.
She gave him another quick look of dislike.
"Sometimes," she said, "they threaten you with something – something you can't stand up to, can't even think about. And then you say, 'Don't do it to me, do it to somebody else, do it to so-and-so.' And perhaps you might pretend, afterwards, that it was only a trick and that you just said it to make them stop and didn't really mean it. But that isn't true. At the time when it happens you do mean it. You think there's no other way of saving yourself and you're quite ready to save yourself that way. You want it to happen to the other person. You don't give a damn what they suffer. All you care about is yourself."
"All you care about is yourself," he echoed.
"And after that, you don't feel the same toward the other person any longer."
"No," he said, "you don't feel the same."


Trecho do livro 1984, de George Orwell.

Friday, March 1, 2013

bicycle

The wind's blowing your hair, ripping off of your shoulders all its heaviness. You go faster and faster and faster, without pushing the breaks; you don't ever want to stop. There's nothing around you, it's only you. There's only the road beneath your feet, and you're running through it all; you're running from everything else. All the chains are broken. You're not kept inside of four walls, there is no door to get through, there is no barrior. The gentleness in the air get down your inside, filling your lungs with life. The cold wind passes through your black leather jacket and your old jeans. Dried eyes, cold fingertips, fast heartbeats. You're able to feel the tenderness of the day embrace you. Your mind slips away, and your thoughts disappear, suddenly all you have is this moment of pure clarity. In all of this, I've found safety.

Monday, February 25, 2013

keep going

Meu lugar não parece ser onde estou. E, constantemente fico a pensar: esse lugar, onde seria? Fico a rodear em cômodos com suas quatro paredes a me encarar; "aqui não é o seu lugar", elas dizem a mim. Rodeio as ruas à noite, olhando as janelas com luzes acesas onde ficam pessoas donas de suas próprios narizes. Vejo grupos de amigos se separando após uma cerveja no bar em plena quarta-feira e cada um tomando seu rumo. Quero meu espaço, também. Quero um lugar pra poder chamar de meu, onde ficariam meus livros em estantes, as paredes repletas de quadros em molduras coloridas, as mesas lotadas de porta-retratos, minhas câmeras fotográficas em uma prateleira e varais de fotografias; gostaria de ter meu cantinho, com todo o pouco que tenho, com apenas o básico do básico, com todo o pouco que é meu. Ainda não pertenço a lugar algum; até lá, continuarei indo, sem parar, sem pestanejar, sem desistir. Como já diria Nelson Rodrigues, "acho a liberdade mais importante que o pão".

Sunday, February 3, 2013

botas batidas

não precisa de livro
nem de mochila ou manual
aprenderá sozinha
quando chegar lá

não precisaria de muito amor
ou cuidado
só uma xícara de café à mão
quando chegar o cansaço

deixa de sonhar
não precisa disso, não
nem de sonho ou de ilusão

seria como uma bela canção
uma bela valsinha
a felicidade em sobreviver

aqui, lá, acolá



Friday, February 1, 2013

gaudium

Apaga com um sorriso toda a tristeza que te invade a alma.

(Um lembrete àqueles que se entregam ao viver, usando eufemismos para anestesiar os tropeços por aí.)